Correr não é voar

 É estranho começar a escrever sem ter certeza do que quer dizer. Alguns aconselham a nem tentar falar se não saber o que dizer. Vou desconsiderar essa afirmação já que estou escrevendo. Depois de tomar a primeira dose da vacina que pode mudar o meu mundo ou, ao menos, desvirá-lo para o normal, meu psicológico preguiçoso quer me convencer a ficar jogada e esquecer que tenho uma prova amanhã. Várias, na verdade. E sábado há um exame de bolsas que não está esperando por mim. Se minha mãe lesse isso, me chamaria de pessimista. Todavia, eu já sei o resultado disso. Gostaria de não dar esperanças à ela, mas sei que não vou conseguir manter a bolsa de estudos. Eu sei que sou boa aluna, pelo menos mediana. E sei que a pandemia tem parte na situação das minhas notas. Mas sei também que nunca quis ser a aluna modelo, e querer é o primeiro passo para conseguir, e acredito que essa frase vale ao contrário. Vários alunos vão tentar o exame, e já vi minha última nota no simulado: caí em várias posições. Acertei sete questões em matemática. Não me julgue por não estar animada. 

A maior parte da minha angústia advém dos outros. Ou das expectativas que imagino que os outros tenham sobre mim. O que, na verdade, são as minhas expectativas que sou orgulhosa e covarde demais para abraçar e prefiro colocá-las no colo de outros. No fundo, enquanto me pergunto por quê escolhi escrever direto no blog, lutando com correções manuais e acentos, acredito que posso ser o tipo de pessoa  que não ligo para números. Entretanto, não vivo em uma bolha. Sei o quanto um currículo excelente importante em nossa atualidade. E sei o que arrisco a cada vez que vejo minha nota. O meu problema é que me importo. Me importo com coisas demais e coisas que não deveria me importar. O resultado disso é a pressão que coloco sobre mim a cada vez que acordo para um dia de aula, e a cada fim de semana que escolho descansar. Ao mesmo tempo que a escola me comprime, não consigo simplesmente desviar o foco. Fui criada em uma sociedade que pensa assim. E é aí que chegamos no meu ponto inicial. 

Escrever. Criar histórias sempre foi uma válvula de escape pra mim mesmo quando eu não sabia o que essa palavra significava. Mesmo quando decidi criar um universo com minhas bonecas feito de castelo de papelão e objetos mágicos feitos de garrafas. Desde que consegui expressar meus sentimentos por palavras, consegui chamar isso tudo de meu lugar. Entre letras de músicas e histórias, cada pedacinho me compõe e me agrada, e mesmo a parte cansativa da coisa me chama. E eu me sufoco pensando que nada disso me traz algo, quando poderia simplesmente abandonar tudo e investir nisso. Sabe, eu gosto de dar aulas, gosto de gerenciar negócios, e gosto de aprender. Gosto de jogar vôlei, testar novas receitas, ir aos sábados em um Happy Hour, e fazer parte de uma equipe. Descobri que, apesar de ter crescido longe de pessoas, a presença delas é reconfortante. O meu cantinho foi ficando em segundo plano e a vida adulta chegou mais rápido do que o planejado, e agora me vejo na encruzilhada do que tenho pela frente, o que deixei para trás, e um caminho completamente em branco para ser escrito com o que eu achar que vale a pena. Mas será que eu tenho respostas? 

Fico matutando que se eu largar tudo de novo que conquistei, estarei abrindo mão de parte de mim. Uma parte mais nova, e nem um pouco tímida. Sabe-se lá se o meu passado será o bastante. Mas sinto que o presente já não é. Na minha confusão para tentar entender tudo isso existem ainda: família, amigos, escola, trabalho, e projetos sociais. Resumindo, todo o resto. E eu poderia me vitimar ao dizer que não tenho tempo para pensar, mas a verdade é que você escolhe como usar seu tempo, e tenho a leve impressão que não tenho usado o meu muito bem. Se 24h não é tempo suficiente e sete dias na semana não é o bastante, ou você tem coisas demais ou não sabe o que quer. Acho que me encaixo nos dois. Tenho, claro, coisas demais, mas também estou lutando para administrar meu tempo o tempo todo.

Posso acabar esse texto com uma frase impactante como: então o que faz aqui? Vamos começar! E eu poderia seguir esse conselho. Mas o que vou te dizer é: você tem o hoje. Administre o hoje, e se contente em pensar que, se fosse o último dia de sua vida, você teria feito coisas que te importam. Mesmo que seja uma por dia. Mesmo que seja pequena. O seu pequeno mundo foi alcançado. Devo seguir esse conselho também. Você conhece mais algum?

Com carinho,

Mia 

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